Refúgio

Esperando na rodoviária tive o presságio dos momentos que viriam. Cheguei cedo demais, peguei um cigarro e sentei. Do meu lado uma senhora e seu filho, em pé ao lado dela. A forma rude e grosseira como ela o tratava me chamaram atenção, mas tudo que eu fiz foi olhar com cara de indignação, enquanto ela gritava e batia com o boné naquele homem com jeito e mentalidade de menino. De repente ela some. E ele anda, de um lado pro outro, com seu desespero aumentando a cada passo, até que chega ao ponto dele começar a chamar por ela, em voz alta mirando o vazio. Ele me olha, sorri sem jeito, baixa a cabeça "minha mãe sumiu..." tentei conversar, mostrar a quem ele poderia pedir ajuda. Meu onibus já havia chegado, eu precisava seguir minha vida, meus planos não é? Afinal... o que eu poderia fazer? Falei com a mulher que estava sentada perto de mim, ela ainda ficaria um bom tempo esperando então passei a responsabilidade, pedi que ficasse de olho nele e qualquer coisa chamasse por algum funcionário. Cumpri meu dever cívico não? Como sou uma boa pessoa! Me ausentei de qualquer responsabilidade com alguém que estava ali, apavorado e incapaz de cuidar de si, mas pedi que a mulher ao lado tomasse conta. O caminho todo me senti um lixo.
Continuo me sentindo um lixo. Aqui não tenho meus amigos, minhas cevas, meus bares queridos ou qualquer outra distração. Aqui eu sou eu, sou só. Aqui encaro meus fantasmas, meu distanciamento com minha família, minha relação estranha com meu avô, minha relação vampírica com minha avó.
Minha prisão cheirosa e confortável. Como eu tenho a audácia de me sentir assim?

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